ROCKABILLY É MÚSICA PRA GUITARRA
Fãns e historiadores podem discordar sobre alguns detalhes, mas... uma coisa não se pode negar: a guitarra é o instrumento que define o estilo Rockabilly. Tome por exemplo uma formação básica de bateria, baixo e guitarra e adicione um sax ou um piano e você tem Rock’n’roll. Adicione agora um violino (ou rabeca) e um banjo e você terá Country.
Nos poucos segundos de um riff de introdução de uma música, é a guitarra que anuncia os próximos três minutos de vida do ouvinte.
Quando as pessoas pensam na banda clássica de Rockabilly, elas imaginam um cantor bem jovem, com muita brilhantina no cabelo. Pensam também num baixista tocando loucamente um baixo acústico, e um baterista segurando a turma toda num ritmo simples quatro-por-quatro. A imagem do guitarrista, no entanto, é a de um sujeito mais velho, logo atras do cantor, tocando uma guitarra semi-acústica.
Provavelmente esse modelo foi estampado na imaginação de todos quando Scotty Moore, com sua Gibson ES-295 (foto acima), gravou as primeiras músicas com Elvis Presley na Sun Records. Scotty era muitos anos mais velho do que Elvis e tinha experiência apenas no Country. Ele não se interessava por Rhythm & Blues e Pop como Elvis o fazia. Mas, quando Scotty tentou tocar Blues e Country acelerado, acompanhando o violão frenético de Elvis (Baby Let’s Play House, One Night Of Sin), o resultado ficou espetacular. Era algo diferente.
Muitos outros guitarristas se enquadraram neste perfil. Por exemplo, Cliff Gallup e sua Gretsch Duo Jet (foto abaixo), tocando com Gene Vincent e seus Blue Caps. Cliff era um guitarrista com experiência em Western Swing e trabalhava como guitarrista contratado de estações de rádio. Seu estilo era basicamente uma mistura de Les Paul (o guitarrista de Jazz que associou seu nome à primeira guitarra sólida da Gibson), Arthur “Guitar Boogie” Smith e George Barnes. Quando Cliff Gallup foi forçado a tocar no andamento rápido, típico do Rockabilly, ele conseguiu deixar registrado o melhor da guitarra Rockabilly que todo guitarrista tenta reproduzir até hoje (Woman Love, Cat Man).

Em Nashville, nomes como Grady Martin, Hank Garland e Chet Atkins tocaram em inúmeras gravações Rockabilly clássicas. Confira o trabalho de Garland e Martin na música “Bang Bang” de Janis Martin (“The Female Elvis” como era chamada), e “I Got A Rocket In My Pocket” de Jimmy Lloyds. Seria difícil de imaginar tal fato considerando-se que esses guitarristas formavam o trio mais famoso de instrumentistas de estúdio especializados em... Jazz. No entanto suas gravações se tornaram antológicas por serem vibrantes e inovadoras.
Na costa oeste dos Estados Unidos Joe Maphis e Barney Kessel gravaram com Wanda Jackson (“The Rockabilly Queen”) a música “Fujyama Mama”, e também com Ricky Nelson. Na costa leste Mickey Baker e George Barnes gravaram com Joe Clay e Janis Martin, onde registraram solos memoráveis do puro estilo Rockabilly.
Bem mais velhos do que os artistas com quem gravaram, eles eram guitarristas experientes no Country e Jazz e nunca se consideraram
roqueiros. No entanto, todos eles deixaram um material riquíssimo que é a base para o estudo da guitarra Rockabilly até hoje. Conforme o novo estilo de música foi ganhando popularidade, novos guitarristas foram surgindo como Eddie Cochran, James Burton, Larry Collins e Gary Lambert.
Apesar da guitarra elétrica ter sido inventada no início da década de 1930, os primeiros modelos eram muito primitivos e ela não teve aceitação até os anos 1940. Com a evolução da tecnologia, o volume da guitarra elétrica aumentou e o timbre passou do acústico amplificado para o totalmente elétrico – mordente e agudo. Os bluseiros da época já usavam o som distorcido, o famoso overdrive de válvula, que era considerado radical para a época. Os guitarristas de Country eram os que primeiro incorporavam os avanços tecnológicos como as primeiras guitarras sólidas Fender Telecaster e Gibson Les Paul (foto acima). Quando o Rockabilly apareceu, esses guitarristas estavam usando o que existia de mais moderno à época. Essas novidades levariam vários anos para serem absorvidas pela maioria dos músicos de outros estilos.
Não eram apenas guitarras e amplificadores que estavam evoluindo rapidamente. A tecnologia de gravação também avançava a passos largos e foi fundamental para a evolução do Rockabilly. Os técnicos de som nos estúdios passaram, em pouco mais de dois anos, das gravações em discos de cera para a “Alta-Fidelidade” das fitas magnéticas no início dos anos 1950. Foi a partir da gravação em fita que surgiu o efeito que mais caracterizou o som do Rockabilly: o eco de fita.
Este efeito mudou para sempre o som das músicas gravadas. Sam Phillips (foto ao lado) tinha acabado de aprender como fazer o eco quando Elvis Presley entrou no seu estúdio, o Memphis Recording Service. Owen Bradley fazia seus primeiros experimentos com eco de fita quando Gene Vincent começava a fazer sucesso e a gravar pela Capitol. Esse efeito no som da guitarra de Cliff Gallup definiu o som da banda de Gene Vincent, The Blue Caps (na música “Cat Man” o eco está até mais alto do que o som original da guitarra).
Mais para o final dos anos 1950, início dos 60, os estúdios já procuravam um novo efeito: o de reverberação, ou Reverb. Nessa mesma época o Rockabilly já não estava mais nas paradas de sucesso e se gravava muito pouco material novo. Isso acabou fazendo com que o som da guitarra elétrica com eco de fita ficasse caracterizado para sempre como o som da guitarra Rockabilly.
O Rockabilly é um estilo de música caracterizado por três acordes de guitarra e muita testosterona. Um estilo que criou um novo herói que se firmaria em (quase) todas as vertentes da história do Rock nos mais de 50 anos que estavam por vir: os heróis da guitarra que acreditavam poder vencer a dor de um amor não correspondido e a força de um ataque nuclear, marchando contra o cogumelo atômico, empunhando sua arma mais poderosa, a guitarra elétrica.






;




