AFINAL , O QUE É ROCKABILLY?

Fala-se tanto de Rock, Rock'n Roll e Rockabilly, geralmente em frases que misturam Country, Blues, Gospel e Jazz. Mas afinal, onde o Rockabilly se encaixa nisso tudo?

Lá pelos idos dos anos 1950, o Sul dos Estados Unidos vivia uma efervescência cultural musical, na qual já existiam estilos consagrados como o Blues, Gospel, Country entre outros. O Blues era a música das plantações de algodão - que mais tarde foi para as grandes cidades do norte do país com o êxodo dos negros das plantações e, em seguida se eletrificou nas mãos de Muddy Waters. O Gospel era a música cantada nas igrejas, geralmente com grupos vocais que tinham, muitas das vezes, solistas talentosos. Já o Country era uma música tipicamente dos brancos do campo. Nas cidades ouvia-se nas rádios o Pop da época que ia desde as grandes orquestras e Swing Bands, passando por duplas do tipo Les Paul & Mary Ford (o mesmo Les Paul da guitarra e sua esposa), chegando à Frank Sinatra.

Mas no sul dos Estados Unidos efervescia também a segregação racial. Não só os negros eram proibidos de freqüentar os mesmos bares e salões de baile dos brancos, como as rádios eram especializadas em "música" e "música de cor". As Jukeboxes (aparelhos de som utilizados geralmente em bares e lanchonetes, que tocavam músicas escolhidas pelos clientes) apresentavam, ao lado do nome da música no índice, uma referência à cor da pele do artista que gravou aquela música (e.g. Blue Suede Shoes-Carl Perkins-White e Johnny B. Goode-Chuck Berry-Black). A segregação racial mantinha a sociedade dividida e era sustentada pelo establishment do sul - governos locais, entidades sociais, famílias tradicionais e por aí vai.

Mas existia uma juventude branca, às vezes, tão pobre como os negros, que ouvia no rádio todos os estilos sem distinção. Essa juventude apreciava a música pela sua riqueza inerente. Os artistas mais talentosos procuravam reproduzir o que ouviam no rádio e nas Jukeboxes, em seus grupos musicais que formavam com seus vizinhos.

Sam Phillips, consciente do valor da cultura musical negra, abriu em janeiro de 1950 o seu Memphis Recording Service - "We record anything-anywhere-anytime". Ele gravava, além de artistas das imediações de Memphis, festas de aniversário, casamentos e até funerais. Por volta de 1953/54 Sam Phillips percebia as mudanças pelas quais a sociedade estava passando com a chegada da era do Jato, e as colheitadeiras mecanizadas gigantes chegando às plantações de algodão. Ele sabia que esses estilos musicais não perdurariam por muito tempo na sua forma primitiva. Alguns dos artistas que gravaram nesse período no estúdio de Sam Phillips foram B.B.King, Ike Turner e Howlin' Wolf, apenas para citar alguns. Ike Turner, que viria a se casar com Tina Turner, gravou a música Rocket 88, marco na história do Rock... mas o papo aqui é Rockabilly.

Sam Phillips precisava fazer o seu estúdio dar lucro pois ele tinha uma família para sustentar e o seu trabalho durante o dia não era o suficiente. Por isso ele começou a ser seletivo no que gravava pois precisava de novidade para vender... precisava de um som novo.


Esse som novo, ou essa centelha de espontaneidade criativa, aconteceu na madrugada de 5 para 6 de julho de 1954 no estúdio da Sun Records em Memphis, Tenesee, quando Elvis Presley tocou, num ritmo frenético, um conhecido Blues de autoria de Arthur Crudups, That's All Right, Mama. Scotty Moore na guitarra e Bill Black no baixo o acompanharam na brincadeira e deixaram Sam Phillips de queixo caído com o resultado. Sam, entusiasmado com o que ouviu, preparou o gravador e pediu que tocassem novamente. Assim foi gravado o primeiro Rockabilly da história. O single That's All Right foi lançado nas rádios locais como lado "A" e Blue Moon Of Kentucky no lado "B" (no site do ROLLIMANS você encontra a regravação dessas duas músicas).

Veja bem o que foi dito: "o primeiro Rockabilly da história". Não se falou "o primeiro Rock da história". Quando o assunto é o primeiro Rock da história, os livros se dividem entre três possibilidades:

  1. That's All Right (Elvis Presley, Bill Black e Scotty Moore),
  2. Rock Around The Clock (Bill Haley & His Comets) e
  3. Rocket 88 (Ike Turner e Jackie Brenston) - esta última gravação foi sem dúvida a primeira guitarra distorcida gravada na história do Rock.
Então, qual a diferença entre Rock e Rockabilly? Complicou! Existem muitas teorias, mas vamos primeiro ao que é certo:

O Rockabilly nasceu em data e local bem definidos: Sun Studios, 5 de julho 1954! Foi o resultado improvável de uma brincadeira juvenil de um caminhoneiro franzino e tímido (Elvis), sob o controle de um homem astuto que soube enxergar a novidade à sua frente (Sam Phillips), com o apoio de dois músicos talentosos que, sem saber, criaram uma base musical que vem influenciando gerações de músicos até hoje (Scotty Moore e Bill Black).

Além disso existem alguns elementos que ajudam a definir o Rockabilly:
  1. Vocal fortemente influenciado por Elvis Presley (no período da Sun Records claro);
  2. Músicos com base no Country e no Blues.;
  3. Progressão harmônica do Blues - acordes I IV V da escala maior, numa sequência típica de 12 compassos.
  4. Eco de fita na voz. Não é Reverb! É o Slapback Echo que Sam Phillips criou e que ninguém na época conseguia igualar;
  5. Instrumentos: violão, guitarra e baixo acústico - este último tocado no estilo "slap bass";
  6. Ausência de bateria;
  7. Vocal com inflexões de Country music;
  8. Ritmo acelerado, muito no estilo "Hillbilly";
  9. Os maiores sucessos do Rockabilly foram gravados em 1954, 55 e 56 por artistas do Sul dos Estados Unidos - temos excessões que comprovam a regra... claro;
  10. O Rockabilly é uma música "machista" feita por "delinquentes juvenís" contra o stablishment . Por terem tanta influência da cultura negra, os artistas Rockabilly sempre foram contra o racismo (por isso o uso da bandeira Confederada por algumas "bandas cover" modernas é inapropriado. Esta bandeira foi criada pelos donos de fazenda do sul que defendiam a escravidão dos negros e foram à guerra contra o governo federal e os estados do norte por essa causa). O Rockabilly é hoje chamado de "O Punk dos anos 1950".
Mas antes de tomarmos esses itens como os "10 Mandamentos do Rockabilly", cabe lembrar que:
  1. O próprio Elvis, ainda gravando na Sun Records, colocou um baterista na sua banda, D.J.Fontana.
  2. O segundo artista mais famoso do Rockabilly, também gravando para Sam Phillips, Jerry Lee Lewis, sempre teve um baterista no seu grupo. Além disso, filmagens da época mostram um baixista usando um baixo elétrico - o primeiro da história - um Fender Precision Bass.
  3. Com o tempo foram adicionados vocais de apoio, os chamados Backing Vocals - para muitos, o melhor deles foi o que acompanhava Gene Vincent, The Blue Caps.
  4. Também com o tempo surgiram artistas femininas verdadeiramente Rockabillies que escreveram letras nada família, mantendo a característica delinquente na música que fizeram - Janis Martin (também conhecida como The Female Elvis) e Wanda Jackson (auto intitulada Queen of Rockabilly).

O fim do período Rockabilly também é confuso. Muitos definem o Rockabilly como o período entre a gravação de "That's All Right, Mama" em 1954 e a convocação para o exército de Elvis em 1959. Outros consideram que em 1959 o lançamento de músicas Rockabilly nas rádios já havia caído muito se comparado com o auge do estilo em 1956. Na verdade, por volta do outono de 1958, o Rockabilly não alcançava mais as paradas de sucesso Top 10.


Fato é: depois de Eddie Cochran, Buddy Holly e Ritchie Valens morrerem em acidentes, depois do escândalo de Jerry Lee Lewis ter se casado com a prima de 13 anos de idade, depois da condenação de Chuck Berry à cadeia por envolvimento com uma prostituta menor de idade e até mesmo depois de uma conversão ao Ministério da Fé por parte de Little Richard, o Rockabilly e o Rock saíram das rádios e entraram na geladeira. A ordem e a paz junto aos adolescentes americanos se restabeleceu... mas só até a invasão britânica ter início.

Existe muito material Rockabilly original remasterizado disponível hoje. Para começar, digamos que todos deveríamos conhecer os originais. Como sugestão:

Elvis At Sun
The Essencial Jerry Lee Lewis
Carl Perkins Original Sun Recordings


Essa é, em linhas gerais, a origem e as características do Rockabilly. Uma música alegre, gostosa de tocar e de dançar. Mais importante do que tocar num baixo-de-pau, numa guitarra acústica ou na bateria em pé, ou quem gravou primeiro, é saber que alguns artistas muito talentosos se jogaram com irresponsabilidade numa aventura efervescente de vida que promoveu uma mistura de culturas e ensinou a América a transar no banco de traz do carro.

8 comentários:

Fábio Mantovani disse...

Meus parabéns à quem escreveu esta matéria sobre rockabilly!
muito bom!

Anônimo disse...

Este texto maravilhoso é uma cartilha para os idiotas desta geração que não sabem de nada e confundem tudo.
Muito bom mesmo e bem escrito.


Abraços!

Vagner disse...

André, mandou muito bem no artigo! Eu nunca li nem em revista especializada algo tão claro e preciso sobre o assunto. Parabéns!!!

Vagner.

Anônimo disse...
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Tarso disse...

Ótima materia,muito bem esplicado,cultura paras as pessoas que curte mas ñ tem nem ideia do real significado desta musica que contagia!!!Parabens otimo

Regina Martins disse...

André,

Você, como sempre, preciso em suas explicações. Desta vez, porém, você se superou...
O texto é encantador, além de bastante didático.
Adorei! Traga-nos, sempre que puder, mais novidades.
Parabéns! Regina

Joni disse...

Muito bom cara!
Estava precisando de algumas informações que foram descritas de uma forma clara no seu texto.

;-)

Paula disse...

Adorei.
Eu estava mais precisamente procurando saber sobre a postura do rocker daquela época em relação ao público negro.
Fiquei super feliz de ter encontrado alguma referencia.
Obrigada :)